Veneza: a cidade viva desde a Idade Média

Na Idade Média, diferente da Idade Antiga, não existia nenhuma supercidade mas sim um grande número de cidades médias significativamente densas e com atividades que propiciavam o seu desenvolvimento e singularidade.

Veneza com cerca de 600 hectares e por volta de 150.000 mil habitantes, era considerada uma delas pela localização estratégica que a tornou um grande centro comercial marítimo entre o Ocidente e Oriente.

Considerado um trecho de laguna urbanizado no qual fazem parte de si vários canais que penetram na cidade e desembocam no mar aberto funciona da seguinte forma: na foz do Canal Grande (que a percorre por inteiro em um “S” bastante acentuado) fica São Marcos (o centro político da cidade); nesse mesmo canal logo mais abaixo está o Rialto (centro comercial) onde localiza-se uma ponte sobre o canal. A rede de canais secundários funciona como ruas de modo que por elas escoa o fluxo de pessoas e mercadorias e levam a espaços abertos (chamados de campos) igrejas paroquiais e o restante da cidade.

Até o final do século XI Vezena já havia estabelecido seu traçado e que praticamente permaneceu inalterado ao observar-se os vários mapas ao longo dos tempos, desde o mais antigo em 1346 até os mapas modernos. Nesse mesmo período (séculos XI e início do XII) os principais edifícios já se faziam presentes como a Basílica de São Marcos e os dois mercados do Rialto, construídos às margens do Canal Grande.

A Igreja de São Marcos, inaugurada somente em 1094, possui uma arquitetura em formato de cruz grega e o seu interior é revestido por exuberantes mosaicos. A cobertura é composta por cinco grandes cúpulas com revestimento de madeira recoberto por chumbo. Os trabalhos de decoração em seu interior foram acrescidos ao longo dos anos, como a “pala de ouro” executada no século XIV e os quatro cavalos de bronze, resultantes da consquista sob Constantinopla e que por um tempo fizeram parte da fachada da Igreja.

Ainda no século XII o matemático Nicoló Barrattieri projeta a segunda Ponte do Rialto feita em madeira e com a parte central móvel para possibilitar a passagem de navios. A terceira ponte só será construída em 1592, em pedra, pelo Antônio da Ponte.

No século XIII é estabelecio o organismo político e a cidade cresce e prospera. As ordens constitucionais da República são fixadas e estabilizadas em 1297. Em áreas periféricas são construídas pelos dominicanos e franciscanos as Igrejas de São João e São Paulo, existentes até os dias atuais. Várias outras igrejas são construídas ao longo dos anos como a Igreja da Saúde localizada na embocadura do Canal Grande e representou o fim de uma peste que assolou em 1631.

Muitas obras de engenharia foram necessárias para manter a integridade ambiental de Veneza em seu cenário tão particular. Novos canais foram feitos para facilitar a circulação de navios e permitindo também a movimentação das águas em zonas insalubres. Também são reforçadas as estruturas entre a laguna e o mar para que a cidade podesse resistir às marés.

Na metade do século XV Veneza vive experiências como a pintura a óleo, a tipografia e a gravura em cobre e que mais tarde irão influenciar a arte européia. São retratados ambientes da cidade, plantas e perspectivas nos trabalhos e que posteriormente serão citados em livros da Renascença.

Nos séculos XIX e XX Veneza passa pelo domínio de outros povos sendo estes os franceses, austríacos e posteriormente italianos. Nesse período vale destacar algumas intervenções realizadas no território. Sob os franceses é completada a Praça de São Marcos (iniciada pelo Doge Sebastiano Ziani ainda no século XII); a construção de um jardim público em S. Elena e um cemitério em San Michele. Sob o domínio dos austríacos Veneza adota a iluminação a gás e uma ponte com extensão de três quilômetros e meio é construída para o funcionamento de um trem, é feita ainda a estação de S. Lucia. Com o domínio italiano, em Veneza é construído um porto moderno para receber navios de maior porte e é marcada também a chegada do automóvel.

Essas inúmeras transformações agiram de forma brusca sobre a economia, a cultura e sobretudo no meio ambiente no qual a cidade possui uma grande conexão. O número de habitantes caiu com o passar dos anos, a fumaça das indústrias e automóveis trouxeram a poluição e a circulação de grandes embarcações  modificaram o equilíbrio das águas que cercam a cidade.

A cidade de Veneza caracteriza-se como um organismo complexo e busca diariamente o equilíbrio entre as águas de seus canais que correm pela cidade como veias e que possuem uma grande relação com o tecido urbano construído em terra e que representa o corpo. A cidade que soube tirar proveito de sua localização estratégica solidificou-se e prosperou sobrevivendo ao longo da história. É para sempre admirada, citada por grandes personagens da história como Le Corbusier, e representada por artistas do mundo todo em suas pinturas, quebrando a barreira do tempo e mantendo-se viva e preservada ao longo dos anos.

Fonte:

BENEVOLO, Leonardo / História da Cidade, 2015

Foto: Danilo Ivo

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