As ruas como o reflexo de uma cidade

O funcionamento adequado de uma cidade ocorre com o planejamento e a execução de vários fatores que conectados em cadeia proporcionam benefícios que contribuem com a qualidade da vida urbana. Uma cidade bonita não é apenas a que abriga belos parques e edificações, a utilização de todos os elementos que encontram-se distribuídos no espaço só possuem significado se tiverem uma função social, uma utilização, e relacionado a isso é importante dar atenção também ao uso e a circulação nas ruas e nas calçadas. Se analisarmos separadamente esses elementos, por si só eles não terão um propósito, uma função. Um edifício que não atrai pessoas é tão ruim quanto uma bela calçada plana e larga virada para um enorme muro ou em outra situação uma rua que não leva a lugar algum. Como no corpo humano as ramificações de vasos sanguíneos alimentam os órgãos, as ruas alimentam e distribuem o fluxo de pessoas pelos diversos pontos da cidade levando à escolas, parques, museus, cafés, habitações entre outros lugares. Tendo em mente a importância dos espaços de circulação, será apresentada a importância do uso das ruas e calçadas como forma de minimizar a insegurança no espaço urbano.

As calçadas e ruas podem dizer muito a respeito de uma cidade. Se essas vias parecerem monótonas, a cidade consequentemente parecerá, se nelas existirem insegurança e medo, a cidade consequentemente refletirá a mesma coisa. Essa é uma relação tão verdadeira que quando alguém fala sobre alguma determinada cidade e diz ser perigosa, essa pessoa está se referindo aos locais públicos de circulação.

Mas como transformar as ruas e calçadas em locais seguros às pessoas? Será que é evitando desconhecidos que fugiremos da violência ou será que a solução se dá estimulando essas áreas a serem mais frequentadas por todos?

Para que as pessoas temam as ruas não precisa haver muitos casos de violência, a insegurança logo aparece quando o espaço é pouco habitado. O medo da violência real e a imaginária podem desencadear em vários problemas e que não necessariamente estão sempre presentes em cortiços ou áreas antigas. Áreas reurbanizadas e de conjuntos habitacionais de classe média ou alta também podem ser atingidos. Não criemos então o rótulo de que aliado à pobreza mora a insegurança.

O que garante a tranquilidade nas ruas não é também a polícia, ela se faz necessária mas não é por meio da força policial que se mantém a civilidade. Também não é combatendo grandes adensamentos que solucionaremos o problema ou iremos nos prevenir dele. É certo que as cidades possuem uma pre-disposição para desenvolver a criminalidade, mas dando atenção às nossas ruas podemos minimizar ou extinguir esse problema. Para combatermos o medo, a insegurança e a violência das cidades é preciso garantir condições físicas através de uma boa infraestrutura que conecte os espaços públicos às pessoas e às edificações, sendo capaz de criar e manter uma rede viva e dinâmica.

Um quarteirão que mescla sua ocupação com habitação, cafés, bancas de jornal dentre outros serviços consegue movimentar ruas e calçadas trazendo vitalidade aquele local. Daí pensamos, quantos olhos temos voltados para essa rua? Quantas pessoas transitam por aquele local voltando para casa ou indo ao trabalho? E não só isso, o uso misto de determinada quadra atrai também pessoas que estão de passagem, seja apenas para pegar um café ou utilizar-se de qualquer outro serviço que esteja disponível na redondeza. Em um lugar movimentado e vivo sempre há aqueles que podem ser considerados proprietários naturais da rua. O dono da banquinha que está atento ao movimento diário de quem passa, o senhor que todo dia sai para passear com o seu cachorro no mesmo horário, há também aqueles que ficam em casa e da janela percebem se há algum movimento estranho… Uma rua movimentada é convidativa aos que gostam de sentar na calçada a fim de conversar com quem quer que passe ou apenas observar a correria da rotina dos outros. Temos em diversas situações os vigilantes naturais que já de imediato hostilizam alguém predisposto a cometer algum ato errado.

Ruas e calçadas vivas atraem a autoconfiança de quem sai sozinho e de quem precisa agir para impedir o acontecimento de uma determinada situação. O dinamismo desses espaços atrai pessoas de diferentes gostos o que o torna ainda mais interessante. Uma boa calçada pode se tornar uma fonte de lazer com idosos conversando, crianças brincando, pessoas que criam uma conversa rápida com os que estão voltando do trabalho, os responsáveis por estas crianças que acabam se conhecendo e mantendo assuntos e conversas diárias em comum.

O uso das calçadas e ruas é capaz de promover a segurança e a nossa liberdade além de podermos exercer nossa civilidade e contribuir para a construção de um espaço cada vez melhor e compartilhado. Ao pensar na cidade temos que dar relevância à sua complexidade e ao poder de impacto que cada componente causa ao ser implantado e utilizado, visto que eles sempre precisam funcionar em conjunto.

Fonte:

JACOBS, Jane / Morte e vida de grandes cidades.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Site hospedado por WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: