A beleza existe?

No início da graduação de Arquitetura e Urbanismo somos guiados a construir o nosso senso crítico e a nos questionar se o Belo existe. Lendo algumas obras como a de Peter Zumthor, cheguei a conclusão o Belo é algo artístico relativo, o qual varia de acordo com as nossas influências.

É possível então definir beleza como uma propriedade concreta de um objeto, ou seria apenas uma sensação humana, um sentimento inspirado em uma percepção de uma forma pré-definida? Seria apenas uma experiência puramente visual ou poderia ser notada e descrita através de outras funções sensoriais como o cheiro, som ou sensação de toque?

Quando estamos abertos e atentos aos espaços somos capazes de experimentar mesmo que brevemente algumas  sensações resultantes do que nos cerca, seja de uma paisagem, uma exposição de artefatos, uma rua, ou um ambiente dentro de um edifício. O esforço gerado ao repararmos em algo que está em volta nos faz alcançar um nível de percepção mais apurado como um estado de alerta consciente e concentração no qual estamos dispostos a experimentar e a absorver a mensagem que o lugar ou o objeto em análise tem a nos oferecer.

Quando somos tocados por algo ficamos completamente absorvidos e imersos na nossa experiência, uma mistura de sentimentos como a euforia e a calma tomam conta, e sem esforço, entramos em um processo contemplativo. Mesmo que a experiência seja breve, o sentimento perdura. Vejo a beleza na paisagem natural como algo que não precisa ser domesticado ou tocado pelo homem pois a sua essência é profunda, intensa e delicada ao mesmo tempo. Estamos presos e fazemos parte de sua imensidão, o que somos e sentimos faz parte dela.

Os espaços e as formas criadas pelo homem não são desprovidos de beleza. A arquitetura pode ser intrínseca, autoconfiante e evidente, como também pode surgir através de uma composição extremamente sutil e delicada. É preciso conhecer além das regras, do domínio de técnicas e métodos, do conhecimento de teorias e etc., pois somente a aplicação destes não são suficientes. O arranjo da obra para ter beleza vem da naturalidade, da experiência e efeitos de composição artística que às vezes, sem o menor esforço, passam a compor o cenário naturalmente como se já pertencesse a algum lugar desde sempre. Reconhecê-la  pode vir de um processo de composição na qual os materiais (a pele) do edifício e seu corpo estão em harmonia e todas as escolhas realizadas tornaram a obra única. 

Mas a beleza existe e se manifesta em aparências e formas inesperadas. Sendo produto da nossa cultura e da nossa educação, ela não pode ser julgada adequadamente pela própria forma. O resultado gerado  que nos leva à reflexão e à termos a primeira impressão podem estar relacionados às memórias, formas, concepções e experiências já vividas e que diferem em cada indivíduo. O resultado que nos toca pode ser estimulante, evidente, profundo ou nos levar à calma, por exemplo.

A beleza está presente nas linhas da obra quando o criador encontra-se concentrado, conectado consigo mesmo, usando também como base suas convicções e experiências reais. Transformar sensações em objetos reais faz parte do processo artístico. Uma arquitetura nasce bem sucedida seguindo processos técnicos mas também possuindo suas raízes em uma experiência arquitetônica pessoal da qual o seu criador vivenciou. Dessa forma, a estrutura física de um edifício, a atmosfera de um lugar, serão capazes de acender as nossas emoções. Ela se lança sobre nós de forma concreta com intensidade e presença que nos faz pensar o que realmente constitui a sua essência. Eu digo, tudo. Ela é profunda e suficiente, ela é poética e distinta, ela é a encenação e representação cuidadosa das nossas emoções, ela é a beleza.

Inspirado em:

Thinking Architecture /  ZUMTHOR, Peter

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